quinta-feira, 15 de julho de 2010

Batizado - nascer de novo

Aos verdadeiros amigos Era o último dia do ano, chovia muito. Mas não importava. Já vestia há dois ou três dias, a mesma roupa. Na verdade a noção de tempo mudara naquele lugar, durante aqueles dias. Não tinha certeza de quantos dias haviam se passado, nem mesmo tinha certeza que se tratava do último dia do ano, mas era como se fosse. A chuva continuava a cair. Chovia há uns dois ou três dias, não se sabe ao certo. No dia anterior as pessoas da aldeia, se é que pode se chamar aquele lugar assim, (talvez vilarejo soe melhor) haviam feito uma confraternização, uma grande festa. Muita Alegria, comida farta, coisa rara naquele vilarejo. Ainda mais depois de tantos dias da chegada. Não se sabia mais quantos dias, horas ou até mesmo meses haviam se passado desde a chegada naquela ilha. Sim, era uma ilha. Ela chegara ali por barco. Havia uma outra opção por terra, mas a trilha era pesada para quem carregava os pertences de fora dali. E ela chegara bem equipada. Se soubesse o que vivenciaria talvez nem tivesse carregado tantas coisas. Descobriu no meio do caminho, digo dos dias, ou das horas, ou dos meses que não precisaria de nada. A verdade é que a confraternização aconteceu no dia anterior ao que todos acreditavam ser o último dia do ano. Sem nem lembrarem, nem por um minuto sequer que o dia seguinte seria o último dia do ano. E a chuva continuava a cair. Desde o dia anterior à confraternização, mas não atrapalhava em nada, as pessoas continuavam felizes, mesmo encharcadas da água da chuva. E se aqueciam como podiam. Cobertas, fogueira, abraços, beijos, risos, conversas jogadas fora e destilados ardentes. Na manhã seguinte à confraternização, tudo mudou. As casas de pano amanheceram sendo levadas pelo vento, a chuva continuava a cair e molhava tudo: roupas, cobertas, colchões, toalhas, lençõis. Nada sobrara seco, a água havia lavado tudo. As pessoas corriam tentando salvar suas poucas peças de roupas intactas à água da chuva, outros tinham o olhar desolado. Alguns permaneciam tranquilos, enquanto observavam a perspicácia de quem construia sua casa de tecido em outro lugar. Em vão, o solo estava encharcado. Ela vivenciava um misto disso tudo, tentava salvar suas coisas, ía organizando da maneira que podia o que ía encontrando pela frente, ora tinha o olhar tranquilo e até arriscava um sorriso para quem encontrava, mas talvez escondesse um certo desolamento. Não se sabe. o dia seguiu, e alguém lembrou: se tratava do último dia do ano. Um dilúvio, levando embora toda a luxuria que podia ter chegado naquele lugar, vinda dos pertences de quem chegara carregado na ilha, para bem longe dali. E o dia seguiu. A chuva não deu trégua. Lonas improvisadas garantiam, pequenas áreas de conveniência naquele lugar. A essa altura, ninguém mais aguentava se molhar, e buscavam em silêncio uma referência do mundo lá de fora. Um rapaz jovem, demonstrava explicitamente seu descontentamento com aquela chuva toda, a perda de sua cabana e o desmonoramento do sonho de passagem de ano feliz. Mas, nada podia mudar essa realidade, digo a dos fatos. E não há nada que podia ser feito. A noite chegava, ninguém conseguia sair da ilha de barco, porque as embarcações foram canceladas, devido ao mau tempo e o mar agitado. Por terra, o caminho seria difícil no meio da escuridão e de baixo de muita chuva, apenas os nativos poderiam encarar. E esses não queriam nem saber de sair dali. E ela decidiu, sem titubiar, aceitar aquela situação. Sem esperniar como o rapaz jovem, e sem tentar impor qualquer resistência àquilo que acontecia. E talvez apenas tomara essa atitude, porque não havia outra saída. Não se sabe. Então, ela se retirou, ainda com a mesma roupa de todos esses dias, e foi se preparar para o banho, que seria frio, mas isso também não importava. Planejava trocar de roupa, mas desistiu. Sua roupa era branca. Se despiu, no banheiro iluminado apenas com uma vela e se olhou no espelho. Estava linda, queimada de sol, dos dias anteriores (havia pego alguns dias de sol desde que chegara), seus cabelos bagunçados, por tudo que havia acontecido, mas tinha um brilho no olhar, que nunca tivera antes. Ficou hipnotizada com sua beleza, e começou a se banhar. Aquele ritual de banho, parecia um ritual de batismo, velas, tambores, a água. A mãe Divina, Iemanjá, Oxum. Uma energia feminina, não sabia bem ao certo quem, orientava o ritual. Um milagre estava acontecendo, bem ali dentro dela. O milagre da transformação. Mas isso ela só se daria conta, muito tempo depois. Já longe dali. A única coisa que sabia, é o que sentia naquele momento, e isso era difícil de explicar até para ela mesma, mas uma força verdadeira se fazia presente. Fez uma oração de agradecimento, vestiu a mesma roupa branca dos dias anteriores. Então, foi até a cozinha comunitária e começou a cozinhar. Perguntou quem poderia ajudar, colheu mantimentos com os vizinhos. E muito tranquila e com uma Alegria imensa no coração, começou a cozinhar para todos ali. E eram muitos. Ela nunva havia cozinhado para tanta gente assim, mas isso também não importava. Outros foram chegando com mais alimentos. E assim todos seiaram, quando puderam, quando quiseram, da maneira que quiseram, da maneira que puderam. Finalmente , a alegria do dia anterior parecia estar de volta, e apagara os acontecimentos turbulentos daquele último dia do ano. Assim a noite avançou, ninguém sabia direito que horas eram, os celulares estavam sem bateria bateria a dias, não importava. Ninguém pulou onda naquele dia, deixaram para a noite seguinte que já apontava uma noite estrelada, daquelas em que se pode ver a constelação de escorpião no céu, e que as estrelas parecem estar à um palmo dos nossos olhos. A manhã seguinte, que acreditavam ser o primeiro dia do ano, amanheceu ensolarada. (Praia do Sono, RJ - dez/2009)

Um comentário:

  1. Penso muito em Ovelhas negras de Caio Fernando Abreu e sua sequência desorganizada de uma praizinha ali na beira do sango, e todos os caminhos´para se chegar lá.

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